Um dia eu fui à Tijuca, famoso bairro daqui do Rio, conhecido por ter um dos morros mais atuantes no comércio de porcarias proibidas: o Borel. Eu queria comprar um carro baratinho porque minha grana andava curta.Vi num anúncio de jornal: Carros Exóticos a Bons Preços? Na Tijuca Tem!
Falei com um amigo meu, que mora lá praquelas bandas, e ele me garantiu que os carros de lá não têm ferrugem porque naquele bairro a maresia não chega nem por decreto: é longe demais do mar.
Então saí de Ipanema, peguei a Lagoa, atravessei o Rebouças, e lá fui eu feliz da vida porque ia comprar um carro bom, diferente e barato.
Fui direto à Rua Uruguai. Encontrei a concessionária que fora anunciada no Jornal.
Um homem simpático me atendeu. Era o Sr.Pensando Naquilo, o dono. Com sotaque gaúcho explicou:
− Se queres tenho uns carros bem interessantes, exóticos, todos em bom estado, vais gostar, tchê. − E continuou:
− Aquela Brasília amarela foi dos Mamonas Assassinas, o Fusca cor-de-rosa pertenceu à dona Marta Suplicy, o Chevette lilás era do Clodovil...
− E aquele Passat de bolinhas pretas? − perguntei, interessadíssima.
− Bah, aquele tem problema. O dono é um tal de Gutão. É do Borel. Ele fala em vender esse carro há uns 10 anos, mas na hora H ele chora, se agarra ao capô, arma um escândalo. Se eu fosse tu, ficava com outro... − falou o homem, coçando a cabeça.
Resolvi ir procurar o tal Gutão pra saber se topava vender o Passat. Peguei o endereço dele com o gaúcho.
Passei por uma rua de pedras, subi por uma estradinha de terra, dobrei à direita, depois à esquerda, subi mais um pouco e cheguei ao topo do Borel, bem dentro da mata. Uma neblina cobria quase tudo, e um frio de lascar me deixou gelada apesar de ser outubro. Parecia que eu não estava no Rio.
Dei de cara com uma casa grande, rústica, coberta de sapê. Na frente uma varanda onde um homem se debruçava sobre um fogão de lenha.
− Boa tarde! − gritei.
No mesmo instante o homem me olhou, surpreso. Segurava uma galinha depenada.
− Está cozinhando? Posso entrar? − perguntei, tentando sorrir.
− O que quer aqui? Estou ocupado, preparando uma janta.
− É o Sr. Gutão? Vim saber do Passat. Quer vender? Foi o Sr.Pensando quem me mandou aqui.
O homem ficou branco, atirou a galinha depenada em minha direção, começou a gritar e caiu pra trás. Percebi que o caso era sério. Aí quem gritou fui eu, pedindo socorro porque vi que o homem estava mal.
Num instante um índio saiu do mato, tacape em punho, pronto pra defender o patrão. Atrás dele, vários outros armados de arco, flechas, zarabatanas: estavam em pé de guerra.
Não esperei nada e despenquei morro abaixo, sem olhar pra trás.
Só parei de correr quando alcancei a concessionária. Na porta, o gaúcho parecia me esperar como se soubesse o que acontecera.
− Cruzes, Sr.Pensando, quase apanhei! Tem um monte de índio naquele lugar! O Sr.Gutão é bravo, hein?
− Eu tentei avisar-te, mas tu ficaste empolgada com o carro! O Gutão é um homem trilegal, é meu compadre, mas se falares no Passat ele vira uma fera. Melhor comprares outro carro, tchê!
− Que diabo de lugar é aquele? Nunca vi nada assim!
− Se tu não sabes, aquilo é uma aldeia indígena perdida na floresta da Tijuca. Gutão já fez de tudo na vida, foi até caminhoneiro, era um homem alegre, mas depois que a Suzana largou dele e veio morar comigo ele virou pajé. Fica lá fazendo comida e tirando fotografia. Só isso, tchê.
− Ah, que pena! E por que ela largou dele?
− Porque ela mandou ele escolher: ou ela ou o Passat. Ele ficou de dar a resposta em um mês... já faz 10 anos!
Não esperei nada e despenquei morro abaixo, sem olhar pra trás.
Só parei de correr quando alcancei a concessionária. Na porta, o gaúcho parecia me esperar como se soubesse o que acontecera.
− Cruzes, Sr.Pensando, quase apanhei! Tem um monte de índio naquele lugar! O Sr.Gutão é bravo, hein?
− Eu tentei avisar-te, mas tu ficaste empolgada com o carro! O Gutão é um homem trilegal, é meu compadre, mas se falares no Passat ele vira uma fera. Melhor comprares outro carro, tchê!
− Que diabo de lugar é aquele? Nunca vi nada assim!
− Se tu não sabes, aquilo é uma aldeia indígena perdida na floresta da Tijuca. Gutão já fez de tudo na vida, foi até caminhoneiro, era um homem alegre, mas depois que a Suzana largou dele e veio morar comigo ele virou pajé. Fica lá fazendo comida e tirando fotografia. Só isso, tchê.
− Ah, que pena! E por que ela largou dele?
− Porque ela mandou ele escolher: ou ela ou o Passat. Ele ficou de dar a resposta em um mês... já faz 10 anos!
(Conto de minha autoria, dedicado a dois amigos e suas maravilhosas manias)

15 comentários:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk ... só mesmo vc pra bolar um conto desses, isso só poderia ter saído de uma mente afetada, mas ao mesmo tempo brilhante como a sua ... kkkkkkkkk ... minha linda Ipanemense ... dou todos os dias graças a Deus por poder desfrutar da sua amizade ... te gosto muito ... um beijo pra lá de grande Meu ... guto leite
Obs: Agora devo dizer, que a senhora errou quanto ao Passat ... o carro em quetão, é um modelo alemão, acostumado as auto-estradas européias ... carro de presidência ... kkkkk ... ta certo que volta e meia ele me de uma enrabada ... mas fazer o que não é mesmo ... faz parte da vida ... quanto a morar com silvícolas na floresta da Tijuca isso vc tem razão ... pois encontrei entre eles algo muito raro nos dias de hoje ... honestidade, lealdade e acima de tudo muito respeito ... posso dizer hoje sem medo de errar .. eu sou o carioca mais feliz desse Rio de tantas balas perdidas.
ai, Lu...eu ri tanto, mas tantooooo.
genial. parabéns!!!!!!!!
acho q vou até aí para comprar o tal carrão, ou talvez não afinal modelo alemão e habituado em estradas europeias...devo até encontrar por aqui.rsrsrs
bjs enormes.
a.
Por favor!
Faz alguma coisa pela "justiça" brasileira.
Flávia vive em coma e a "justiça" brasileira também.
Obrigado
David Santos
hahahaha!!!!
Minha nossa mais um blog prá eu ficar fâ!!
Putz, Lu é o máximo, mas vc se arriscou muito: já pensou se a turma não tivesse doidona?//
Soube que o pajé Gutão e um dissidente do Santo Daime!!!!
Te cuida!!!!
Apareça sempre, vou linkar vc la em "casa"
Bjux
Ola moça,assim que recebi o convite corri....srsrs.mas que maravilha heim,o gutão merece mesmo.Esse carro arrasou heim,adorei as bolinhas....rsrsr.Tenha um feriadao delicioso.
beijusssssssssssssss
TempoBreve disse...
Lucordeiro:
Desculpar-me-á mas eu continuo a desejar-lhe "Bom dia!".
As "Peles" são um outro blogue que é meu. Pode ir visitá-las, se clicar nelas, que estão ali expostas na margem esquerda do "TempoBreve". Às vezes eu escrevo como se eu fosse duas personagens: o Tempo e as Peles. Deve vir daí alguma confusão.
Eu entendo perfeitamente o que você escreve. Porque você escreve bem.
Todos os escritores brasileiros que eu conheço escrevem bem. Não há nenhum que eu não consiga entender facilmente. E olhe que li e leio vários.
Quando leio alguns comentários que fazem no seu blogue, eu noto diferenças. Mas, mesmo assim, eu os entendo. Mas nem todos escrevem bem, como você escreve.
Eu completei o ensino secundário nos Estados Unidos da América do Norte. Eles também acham que têm uma língua diferente do Inglês da Inglaterra. E as razões são exactamente as mesmas que os brasileiros apontam em relação ao Português. Mas não têm razão. Não há outra língua. Pelo menos nos próximos séculos.
As diferen�as são insignificantes. Veja o Jorge Amado, o Machado de Assis, e tantos outros. Aquilo é Português, sendo Brasileiro; aquilo é Brasileiro, sendo Portugês.
O que eu acho de tudo isto é que nós, portugueses, lhes devemos agradecer a vocês, brasileiros, o enriquecimento que deram à língua que é nossa e que é vossa.
Eu acho que voltaremos a este assunto.
E aqui vou eu, Atlântico fora, até ao Brasil. Isto é, até a si.
Beijos. Em Português. Espero que entenda.
:-)
31 de Outubro de 2007 23:20
Isso é um carro ou o 103º dálmata?
[]s
Bom, guria, como sempre digo, em briga de descornado e safada a gente não se mete. O tal de Guto até que é bom sujeito, mas o carro e a Suzana não prestam, se vê logo. O carro ficou no pátio e como as safadas são as mais procuradas, comprei uma cama de casal e ela foi ficando. Não
presta, mas é ótima naquilo, e embora volta e meia de umas fugidas estranhas, sempre volta. Se bem que às vezes eu pego ela olhando o tal passat, meia contemplativa. Acho que é comichão.
Bom, guria, como sempre digo, em briga de descornado e safada a gente não se mete. O tal de Guto até que é bom sujeito, mas o carro e a Suzana não prestam, se vê logo. O carro ficou no pátio e como as safadas são as mais procuradas, comprei uma cama de casal e ela foi ficando. Não
presta, mas é ótima naquilo, e embora volta e meia de umas fugidas estranhas, sempre volta. Se bem que às vezes eu pego ela olhando o tal passat, meia contemplativa. Acho que é comichão.
Hilário!!!! Não sabia que tinha gaúcho escondido nas matas cariocas!!
Continua assim com esses textos de rolar de rir, só me deixe de fora! Já tem um gaúcho aí prá servir de inspiração!
Beijo!
Sílvio
Índios de tacape no morro do Borel é no mínimo surrealista. Tô segurando a barriga de tanto rir.
Li agora o texto. Uma bela história.
Mulher que queira o Passat, só tem que ir onde você foi, e ficar com o Gutão. Você não o quis; lá se foi o Passat.
:-)
Lu, adorei o passeio q vc me proporcionou com esse conto...kkk.
Assisti a td como se fosse um filme, td mto bem amarrado e c mto bom gosto. Vc eh mesmo d+!
Qualquer dia vou tentar enveredar por esses seus caminhos, caminhos q vc passeia c mta propriedade. Até lá, sigo com meus sonetinhos de meia pataca, só p n enferrujar...rss
Bjao e otimo fds querida.
Te adorooooooooooooooo.
Pelo bem da verdade histórica....
Os indios do boréu usavam bordunas, não tacapes!
[]s
O Carioca
Pelo bem de uma outra verdade...
Que espetáculo de cordeiro loiro!
[]s
O Carioca
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