30 de janeiro de 2011

Amor Que Não Vale a Pena? Caia fora!


Apaixonou-se, ficou louca pelo saradão sem nem mesmo conhecê-lo direito.Ou, em caso inverso, pela gostosa que te deu mole no primeiro olhar que trocaram.

E em pouco tempo percebeu a furada em que se meteu. Mas o coração, esse órgão que não pensa mas tem vida própria e é rebelde pra caramba, se faz de surdo aos apelos da razão. E você foi-se enrolando nos espinhos de um amor destrutivo, jogando sua auto-estima no lixo do mendigo da esquina porque se apaixonou por uma ficção.

Dedicou-se tanto ao Ursão! Ou em caso inverso, à Fofuchinha, não é mesmo?

Abriu mão dos amigos, estropiou os cartões de crédito em presentes sem fim, quase perdeu o emprego porque não conseguia se concentrar em mais nada que não fosse o seu grande amor.

Tremia só em vê-lo, escrevia longos poemas recheados de clichês dignos de novela lacrimosa. Fazia tudo e qualquer coisa para agradar “o motivo de sua existência”: agüentava, firme, a presença daquelas pestes que Ursão, ou Fofuchinha, chamava de filhos, mas que não passavam de vândalos que destruíam seus CDs, pisoteavam o sofá que foi de sua avó, e detonavam todos os biscoitos que você guardava para a fome das madrugadas, além de pisarem, de propósito, no rabo de teu gato que dormia na santa paz do Senhor.

Você, um ser apaixonado, babando de tesão e encantamento, tudo perdoava e tentava entender, acreditando que, como dizem por aí, qualquer forma de amor vale a pena. Mentira! Quem inventou isso é masoquista.

O amor era tanto que você quase não dormia, pensando naquele corpo, naquela boca que sabia como te beijar, naquele cheiro que ninguém mais no mundo teria igual. E não importava se era de suor, cueca suja, perfume de quinta categoria, ou tudo junto. Era o cheirinho do seu amor.

Presta a atenção: o amor não só é cego. Também não tem olfato e confunde "Kouros" com colônia de fundo de quintal e desodorante com prazo de validade vencido.

Você perdia até a fome, caso Fofuchinha, ou Ursão, não te telefonasse conforme combinado. Mas se submetia, toda (ou todo) feliz, aos almoços de família na casa da tia-avó do seu amado, lá nos confins do mundo civilizado, engolindo empadão de galinha que a matrona cismava em preparar aos domingos e feriados.

E, quando conseguia se livrar da parentada do Ursão, ou da Fofuchinha, suava em bicas quando, de estômago revoltado, enfrentava o buzão de volta pra casa porque ele, ou ela, achava um desperdício de grana andar de táxi enquanto transporte público é beeeem mais barato.

E ficava com cara de abestalhado quando ele (ou ela) te fazia um carinho em público. Você parecia um vira-latas que ganhou um ossinho, só faltava latir, agradecido. Sei como é isso.

Era Deus no céu e Ursão, ou Fofuchinha, na terra. Nada mais tinha graça ou valor. E até beijo de comadre te deixava com o coração palpitando.

Acontece que um dia, Ursão, ou Fofuchinha, acabou com a ilusão: aprontou todas as sacanagens que um ser malévolo pode bolar, e te deixou na mão, sem chão, sem ar, sem lenço e quase sem documento. É um chupa-cabra da identidade alheia.

A primeira coisa que te passou pela cabeça foi se atirar da ponte Rio-Niterói, mas a falta de ânimo para se mover até lá, te impediu. Preferiu ficar deitado, olhos pregados no teto, catatônico, desejando morrer ali mesmo, na lenta agonia da desilusão.

Cabelos desgrenhados, banho por tomar, guimbas de cigarro pelo chão do quarto. E você, doente de decepção e saudade, não atendia nem telefonema de seu melhor amigo. Ficou um trapo.

Emagrecido, amarelado, sujo, resolveu afogar as mágoas provocadas pela insensível criatura que você tanto amava. Vestiu a bermuda velha, calçou os chinelos que há muito esperavam ir para o lixo, e foi encher a cara no bar mais próximo.

Depois do quinto copo chorava como um bezerro desmamado, contando suas desventuras para quem quisesse ouvir. E para os que não quisessem, também.

Enquanto isso, Fofuchinha, ou Ursão (dependendo do caso) se divertia na esbórnia da night, suspirando entre todos os braços que lhe apareciam pela frente. E você, a um passo de tomar veneno pra rato, já havia enchido tanto o saco de seus amigos que um deles resolveu acabar com seu sofrimento, usando tratamento de choque: contou-lhe o que todo o mundo já havia visto. Resultado: o choque foi tamanho que você quase foi parar no hospital.

Procurou terapeuta, pai-de-santo, padre, cartomante, fez mapa astral, consultou tarólogos. Nada adiantou: a paixão está lá, vivinha da silva nas tuas entranhas, te corroendo do cérebro ao dedão do pé, incluindo tua carteira porque esses consultores da desgraça alheia cobram uma nota preta para te iludirem com a possibilidade de Ursão, ou Fofuchinha, também estar sofrendo.

Enfim...

Você quer esquecer aqueles braços, aquele corpão que te enfeitiçava e onde você se perdia cada vez mais porque aquilo é um labirinto onde habitam todos os pecados do mundo. Quer esquecer. Mas não sabe como nem o que fazer. Certo?

Primeiro, queime todas as fotos daquele amor que te fez sofrer, que te transformou num descerebrado, que fez com que você se anulasse a ponto de não conseguir ter vontade própria.

Queime ou guarde-as na parte de cima do teu armário, num lugar que te dê muito trabalho para pegar, trancadas num cofre com a fechadura emperrada. E não caia na besteira de dar uma olhadinha de vez em quando!

Nunca procure saber o que aquela peste está fazendo da vida, se melhorou da unha encravada, se conseguiu ganhar no jogo-do-bicho ou se pintou o cabelo de amarelo-cheguei. Ela não faz mais parte da tua vida, entendeu ou quer que eu desenhe?

Não ouça músicas românticas, de fossa, ou aquelas que vocês dançaram e ouviram juntos. Elas vão te fazer urrar de saudade e só se lembrar dos momentos bons. Os ruins somem da mente porque neurônio de apaixonado é um safado seletivo quando se trata de memória. E isto prolonga o sofrimento.

Jamais procure amigos ou parentes dele (ou dela), mesmo que você venha a saber que ele caiu no poço do elevador, quebrou o pescoço e está no hospital já vendo luzes onde não existem. Resista!

Desvie o olhar de casais se beijando e procure imaginar que eles são apenas “ficantes” que com certeza têm herpes e estão se contagiando!

Filmes? Só de porradaria ou desgraça absoluta. Comédias românticas fazem mal a coração machucado. E o teu está precisando de sutura.

Se algum desalmado perguntar se vocês fizeram as pazes, finja-se de surdo e vá caindo fora. Tem sempre um maldito querendo gozar com a infelicidade alheia porque de outra maneira não consegue.

Não tente levar qualquer um pra cama. O risco de você brochar é de 99%. E vai bater saudade do Ursão, ou da Fofuchinha, e é capaz de você não resistir e ligar para ele, ou pra ela, às 5 hs da matina. E não vai pagar mico, vai pagar a selva inteira.

Jamais atenda qualquer telefonema dele, ou dela (conforme for seu caso). Com certeza a peste está fazendo isso só para não ser esquecido e marcar território ou te botar no banco de reserva para alguma emergência. Quem não prestou antes, não vai prestar agora nem nunca!

Saia muito, encontre pessoas divertidas, arrume-se, trabalhe até ficar exausto, entre para uma academia e malhe até o corpo cansar, o sexo adormecer e a mente esvaziar.

E, quando encontrar alguém interessante, não compare porque a comparação é o início da infelicidade humana, já disse algum sábio lá das bandas do Oriente.

Não tente nada em sala de bate-papo na internet. É uma roubada sem tamanho e só vai te frustrar porque maluco ali é o que não falta. E a chance de você trocar 6 por meia-dúzia é quase certa.

Se um dia, por azar absoluto, der de cara com Ursão, ou Fofuchinha, atravesse a rua rapidinho. Qualquer conversa pode ser desastrosa porque “ex” nunca se transforma em amigo. E o risco de uma recaída é enorme e fatal.Voltar à estaca zero é tudo o que você não precisa.

Quando encontrar alguém que o faça pensar em beijo não perca tempo: beije muito! E se o beijo for bom, enrosque-se com ele (ou ela) até cansar...

É sinal de que já está esquecendo aquele amor que não valia a pena.